Ruinas Cotidianas

Lá ia eu.

Posted in Lílian by Lilian Buzzetto on 03/04/2010

(6:30) Abro a janela e vejo um lindo dia ensolarado. Céu azul, brisa suave, o mar. Após um delicioso banho, sento-me para meu relaxante ritual matinal com café, cigarro e jornal de papel. Nem as desgraças e restrições que leio abalam meu bom humor. Bom dia, mundo!

(7:00) No elevador, encontro com velhinhos simpáticos que me cumprimentam com a paz de espírito dos aposentados – um bálsamo para a alma. Um bom dia sorridente para os porteiros, música animada no carro, cabelos molhados ao vento e lá vou eu, conquistar o mundo.

(7:05) – Viro a esquina e me deparo com um farol vermelho impedindo minha conquista. Acendo um cigarro. Aqui, há um semáforo a cada 100 metros e todos estão sincronizados para que você não perca nenhum – fechado, claro. Trago. Solto. Trago. Solto. Farol verde. Trago. Solto… Demora um pouco para os carros se moverem. Os velhinhos têm reflexos mais lentos. Trago. Solto… Farol amarelo. Corro e passo.

Paro de correr. O limite de velocidade é 50 km/h. Acho que uma cidade a 50 km/h não vai longe. E nem você nela. Aliás, por aqui, não vai mesmo – meus velhinhos dirigem a trinta, mirando o meio do carro na faixa pontilhada. Com toda paciência, lá vou eu para fora da cidade.

(7:30) Estrada a 110 km/h. Cabelos semi-secos ao vento, música alta, solzinho gostoso e uma decisão pela frente: “Imigrantes ou Anchieta?” Fácil: Imigrantes. Pela Anchieta vão os caminhões, certo? Errado. A Ecovias vive obrando (no sentido caipira do termo) nas rodovias, então, todo mundo vai junto, independente do número de eixos. Duas faixas com caminhões quase parados. Mas, acendo um cigarro e lá vou eu pela faixa que sobra.

… Lá vou eu até que um caminhão decida ultrapassar o outro – pela minha faixa. Esquece o espaço veloz só com carros. A 15 km/h, outro cigarro e muitas saudades dos velhinhos, começo a contagem regressiva com os túneis – T12, T11, T10…  T1.

(8:00) Fim de Serra. Muitas faixas disponíveis, 120 km/h. O letreiro luminoso diz “Chegada a São Paulo – Tráfego Normal”. Cabelos secos ao vento e cantoria em voz alta. Meu coração se enche de alegria. Lá vou eu chegar no horário. Eu acredito. Eu posso. Eu consigo.

(8:15) Idiota. Idiota. Idiota. Tráfego normal em São Paulo quer dizer trânsito parado. Não consigo mais entender a alegria daquela moça se esgoelando no meu ouvido. Passo para Rádio Bandeirantes e ouço as mesmas tragédias e neuras do meu jornal. Lá vou eu, fumando de novo, para esse mundo violento e chato que não tem mais jeito.

(8:30) Entrada na Bandeirantes. Quem está na faixa da esquerda, quer sair pela direita e vice-versa. Quem foi o engenheiro que achou inteligente obrigar o trânsito a fazer um X nos viadutos? Quem deu um diploma para essa besta? Acenos, pedidos, fechadas. Não ouço mais o rádio – só o tic tic da seta. Após um esforço sobre humano, chego do lado certo da pista. E lá vou eu, reclusa na faixa porque os motoqueiros criam uma parede nos corredores.

Bi bi bi bi biiiiiii. Ai, que vontade de enfiar aquela buzininha no cu de um.

Pronto, falei o primeiro palavrão do dia.

(8:45) A Bandeirantes anuncia que avenida homônima está com 8 km congestionamento – do Viaduto Aliomar Baleeiro até o Viaduto Via Armênia. Porra, não era mais fácil falar que a merda da Avenida está TODA parada? E esse sol maldito? Estou cozinhando. Os cachorros vão começar a me olhar pelo vidro do carro como se eu fosse um frango de padaria. Cadê o cigarro?

(9:00) Quinze minutos e três quilômetros depois, embaixo do aeroporto, não consigo escutar o rádio, mas era algo sobre São Paulo conquistando alguma coisa… Ah, outro recorde de congestionamento.

(9:10) Compro uma água do ambulante, enquanto um babaca no rádio fala que a ANVISA está preocupada com o comércio irregular de alimentos e bebidas nas ruas. Querem que eu morra desidratada? Ofendo o rádio. Lá vão vocês para puta que pariu.

Rastejo até a Marginal Pinheiros que está congestionada da ponte da Casa do Caralho até a ponte da PQP (Tenho certeza que esses foram os termos empregados pelo rádio) E me deparo com um faixa que diz: “Respeite o ciclista”. Eu não respeito mais nada nem ninguém, fui clara? Ligo pro chefe, chorando.

(9:35) Estaciono: suada, descabelada, amarrotada e com a certeza de que “deixar o cabelo secando ao vento” foi uma péssima idéia. Quem me der bom dia perde os dentinhos da frente. Juro.

Estou exausta. [Mais um cigarro.]

Pelo menos, o transtorno acabou.

Posso descansar agora? Não, agora eu começo a trabalhar. Lá vou eu me foder o dia inteiro.

Alguém precisa de mais alguma explicação para meu mau-humor? Tomara que chova granito (isso mesmo) e acabe com o mundo. Grata.

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